sábado, 23 de abril de 2011

A Cruz





RELEMBRANDO O QUE É UM ÍCONE
- Ícone significa Imagem
- É como uma janela aberta para os mistérios de Deus
- Diz-se que um ícone é escrito porque reescreve passagens bíblicas
- É escrito com traços simplificados e cores vivas porque fala da fé e de um jeito novo e diferente de viver, ao jeito de Deus e do seu Reino. Fala então de outras lógicas, diferentes das nossas.
- Para que serve?
Serve para ler as Boas Notícias do nosso Deus de maneira mais visual e para assim ajudar a reflectir e a meditar sobre os mistérios e pessoas neles representados.
Serve para orar diante deles como estando verdadeiramente diante do que está representado, tendo assim para onde olhar e deixar-se olhar por ele.




ÍCONE DA CRUZ DE S. DAMIÃO
Este ícone é bizantino, do século XII, foi encontrado por Francisco de Assis, numa igreja em ruínas dedicada a S. Damião, daí o nome do ícone ser chamado de Cruz de S. Damião. Pensa-se ser da autoria de um desconhecido iconógrafo italiano. O ícone foi elaborado em tela colada sobre madeira de nogueira e mede 1,90 m de altura e 1,20 de largura.


Não é possível apanhar toda a força da Vida que é anunciada e festejada neste ícone sem antes ter presente os momentos que o antecedem.
Jesus foi condenado à morte. Foi assim que terminou a sua vida cheia de opções. Porque o seu jeito de viver anunciando o Reinado de Deus já presente, já próximo.
Foi condenado à morte para servir de exemplo a todos os que tivessem vontade de levantar a voz contra a opressão e tudo o que desumaniza. Jesus era visto como perigoso porque cativava multidões, e bem sabemos como é influenciável uma multidão… bastava uma palavra de Jesus e todos pegariam em armas para, com violência expulsar o império que os oprimia… e ficariam muito mal também os poderes religiosos que ocupavam os seus lugares porque pactuavam com essa opressão. Então sentiram ser urgente calar Jesus de uma vez para sempre.

Jesus foi condenado à morte pela tortura numa cruz. O meio de tortura que conduzia à morte mais cruel e doloroso daquela época. Muitos morreram assim às mãos dos romanos. Jesus deixou-se entrar nesse circuito de violência, dor e morte. Deixou-se entrar porque não quis fugir – com essa atitude negaria tudo o que tinha vivido e anunciado – e também não quis responder com violência à violência. É por isso não o vemos resistir nos relatos dos evangelhos, nem recuar, nem actuar, sempre com uma atitude absolutamente desconcertante quebrando essa espiral da violência que gera violência.

COMO É QUE NOS MORREU O NOSSO JESUS?
A execução desta maneira tinha o objectivo claro de ser um acto público para provocar a humilhação e o medo.
O local era propositadamente escolhido para chocar o maior número de pessoas exactamente à entrada da cidade. Todos os que peregrinavam até à cidade santa tinham que assistir àquele “espectáculo” para perceberem qual era o resultado da má conduta diante do poder romano estabelecido.
Qualquer “herói”/mártir ou malfeitor que fosse condenado a morrer deste modo era ridicularizado, humilhado ao extremo: os condenados eram crucificados nus. Com Jesus não terá sido diferente.

Eram pregados pelos pulsos e pelos pés ficando assim pendurados. O condenado vivia o tempo que conseguisse ter forças para se erguer e poder respirar. Acabando-se as forças para se erguer morria asfixiado. Isso podia levar mais que um dia dependendo das condições físicas do condenado e se era necessário apressar o processo eram-lhes quebradas as pernas para que já não pudessem erguer-se e respirar.

Certamente nos interessa saber como é que morreu alguém que é nosso, alguém que amamos. É importante, sobretudo, ter a noção clara de que tudo isto “doeu” mesmo a Jesus e foi mesmo humilhante (era de tal modo vergonhoso e provocava tal medo que os discípulos fugiram todos nessa hora, envergonhados pela humilhação, impotência do Mestre que seguiam… desiludidos com ele.

Tendo tudo isto presente podemos então começar a ler o ícone, porque o que temos diante de nós é o Hoje que acontece, depois da morte de Jesus.

Textos: Apocalipse 1, 17-18; João 21, 1-14

JESUS RESSUSCITADO NA CORTE CELESTIAL

Temos no topo do ícone alguém a quem não vemos o rosto, só a Mão Direita num semi-círculo. É a Mão Direita de Deus, Aquele que cria e recria, levanta e salva. É a mesma Mão que tirou o povo de Israel da escravidão do Egipto.
É a Mão que confirma a vida inteira de Jesus e o reconhece como Filho, por isso é a Mão que o levanta/suscita da morte e lhe dá a Vida, da Sua Vida, da Sua Festa.

Vemos no ícone como Jesus, num permanente movimento de subida para o Pai é acolhido pela Corte dos anjos em festa, ele é acolhido no Seio da Família de Deus.
O jeito de viver de Jesus é reconhecido por Deus como o Seu próprio jeito de viver e actuar, Jesus é o que cumpre o Seu projecto de maneira absoluta.

Estes 10 anjos – número que representa a plenitude, a perfeição, o próprio Deus – reconhecem Jesus e estão felizes com a sua chegada. Os anjos são a personificação da acção de Deus na humanidade.
Dizer que Jesus foi ressuscitado por Deus é dizer que o Céu se espalhou por todo o lado e por todos os tempos. É o Deus que não está só nos Céus como que separado da Humanidade, mas está espalhado por todo o lado.

O círculo em que Jesus sobe é símbolo também de perfeição e o vermelho vivo é o símbolo da Vida.
Leva as vestes sacerdotais porque ele é o Sumo-Sacerdote definitivo e eterno da Nova Aliança.

JESUS COM A VESTE DAS FUNÇÕES SACERDOTAIS

Passamos agora a outro círculo que é o dourado que circunda completamente a cabeça de Jesus como um Sol que ilumina tudo.
Ele é a Cabeça da Humanidade inteira, a Humanidade que é o seu Corpo, que ele leva consigo para o Pai.


Os círculos aumentam de tamanho de cima para baixo como se nos conduzissem numa importante sequência, ao nosso encontro.



O Pai (1ºsemi-círculo) confirma e ressuscita Jesus (2ºcirculo) e fá-lo assim vencedor da Morte plenamente em comunhão com Ele na Festa da Sua Família. É Seu e é Seu Filho. É assim que nos é dado pela sua Mão (3ºcirculo) como DOM maior à Humanidade.




Jesus que tem uns olhos largos, abertos, muito vivos, com todo o seu corpo parece sair daquele cenário que tem atrás e “descola-se” para vir ao nosso encontro, braços abertos para o abraço. Está presente diante de nós, cada vez mais próximo.


Acima, no círculo vermelho estava com as vestes de Sacerdote (Ex 28,12) depois vemos que se despojou delas e veste apenas um pano de linho puro debruado a ouro com um cíngulo dourado. Esta é também uma veste do Sumo-Sacerdote, aquela com a qual o sacerdote exerce o culto.





O QUE SIGNIFICA DIZER QUE JESUS É SUMO-SACERDOTE?
Toda a Carta aos Hebreus fala disto porque trata da passagem da Antiga Aliança para a Nova Aliança inaugurada por Jesus.

- Os Sacerdotes da Antiga Aliança precisavam de se separar do povo para realizarem a sua função. MAS Jesus, o Sacerdote da Nova Aliança, não se separa nunca do povo, pelo contrário, ele comunga plenamente com o povo, com a Humanidade, prova de tudo, experimenta tudo como nós – menos o pecado.

- Os Sacerdotes da Antiga Aliança, antes de exercer as suas funções em favor do povo diante de Deus, precisavam de as exercer primeiro por si mesmos por serem eles também pecadores.
Voltavam-se para si mesmos antes de se poderem voltar para o povo. MAS na Nova Aliança inaugurada por Jesus Sumo-Sacerdote, ele está permanentemente voltado para o povo, em nenhum momento deixa de estar voltado para nós porque não precisa de exercer as funções por si mesmo já que não tem pecado.
Jesus é uma nascente contínua de Cura e de Vida.

- Todos os Sacerdotes da Antiga Aliança eram transitórios. As suas funções terminavam. MAS a função do Sumo-Sacerdote Jesus, na Nova Aliança, não acaba nunca e é eficaz, porque ele está vivo, connosco, SEMPRE. A sua mediação entre Deus e os Homens não acaba nunca.

É assim que Jesus está representado no ícone… em funções.

É o Novo e definitivo David.
É o Novo e definitivo Sacerdote.
No livro do Êxodo encontramos o relato de David, que sendo Rei e por isso Sumo-Sacerdote, usava o mesmo traje quando levava, em procissão com todo o povo, a arca da aliança para o Templo. Pelo caminho paravam várias vezes para fazer o ritual do sacrifício de animais, degolando-os, e depois aspergindo o sangue pelo povo.

Aspergir sangue era um gesto de grande bênção, era um grande dom. Como o sangue, naquela cultura, simbolizava fortemente a vida, receber o sangue aspergido era receber vida (conhecemos a aspersão pela água baptismal, um gesto cuja origem poderá ser esta)
Neste ícone vemos como Jesus asperge do seu próprio Sangue, ou seja, da sua própria Vida Ressuscitada a todos sem excepção, por isso se vê a jorrar vivo através dos sinais visíveis da sua morte.

Ele não está pregado, avança para nós, um pé a seguir ao outro, devagar, sem nos invadir nem se impor, e oferece o Dom da sua Vida/Sangue em abundância e continuamente a nós.
Vem ao encontro do Abraço, faz lembrar o Abraço do Pai da parábola.


A Ressurreição de Jesus não apaga a sua história, nem Jesus se envergonha dos sinais da sua morte. São feridas que não estão cicatrizadas, tal como aquela ruga na testa representa o sofrimento que passou e representa agora a plena comunhão com todos os que sofrem. Ele continua a “sangrar” com aqueles que “sangram” porque está absolutamente em comunhão connosco.
Esses sinais são, ao mesmo tempo e de maneira plena, DOM e COMUNHÃO.
Dom de Cura e de Vida
e Comunhão com o nosso sofrimento.

Texto: Hebreus 4,14-16

O QUADRO DAS TESTEMUNHAS
Reconhecemos com facilidade as testemunhas maiores. Estão identificadas em baixo dos pés.


Do lado direito de Jesus está a Mãe de Jesus e o Discípulo Amado que num gesto discreto apontam para Jesus e falam entre si de olhos nos olhos. O Discípulo Amado é aspergido com o Sangue que jorra do peito aberto de Jesus.

Do lado esquerdo de Jesus estão representadas as mulheres que, nos Evangelhos, foram presença constante no seguimento de Jesus, mesmo no momento da cruz. Aqui está Maria de Magdala e Maria mãe de Tiago que também falam entre si.

O gesto da mão junto do queixo tanto da Mãe de Jesus, como de Maria de Magdala parecem sugerir que todos estes mistérios as deixam pensativas, a meditar no seu coração em tudo o que dizia respeito a Jesus.

Está presente também um Centurião Romano, o único que não apresenta auréola, o único que não terá convivido com Jesus mas aqui faz parte das testemunhas principais. Estaria talvez responsável pela execução de Jesus. No momento da morte o Centurião o reconhece de alguma maneira e proclama uma exclamação de fé:
“Verdadeiramente este homem era Filho de Deus!”
Ele olha directamente para Jesus como quem inicia agora uma caminhada de fé de olhos postos nele.

Atrás dele vê-se uma outra figura que olha também fixamente para Jesus e atrás deles uma multidão de pessoas que se aproximam à espera de entrar no mistério da Vida Ressuscitada de Jesus para ver e acreditar.
Atrás do Centurião romano, pagão, está toda a “descendência” de pagãos atrás dele, onde estamos nós também.



Duas figuras menores se apresentam abaixo, uma de cada lado.
O romano que, com a lança terá trespassado o peito de Jesus, depois de já morto e que também tem nome segundo a tradição – Longinus.

A outra personagem é misteriosa. Não tem nome, é um ancião, e apresenta uma atitude corporal desafiante com o rosto de perfil e é a única personagem em todo o ícone de boca aberta.
Parece dizer:
Mt 27, 40-43

Nas antigas normas iconográficas, quando um rosto era representado de perfil significava a personificação do Mal, da Divisão.
“Se és…” “Se ele é…” tal como nas tentações do deserto. Esta personagem mostra-nos como Jesus é um de nós porque foi tentado em tudo, como nós.

A boca aberta, segundo a tradição dos ícones é escandalosa porque todos os ícones são silenciosos e convidam ao sossego e à meditação. Esta personagem parece cheia de ruído.

GALO
O galo é claramente o símbolo das três negações de Pedro.



Está representado sobre um circuito negro. O negro simboliza o mal e o pecado.
Vemos como este circuito circula por todo o ícone, mas não se completa. A vitória de Jesus sobre a Morte, o Mal e o Pecado quebra os seus circuitos negros não os deixando atingir o seu fim último.
Vemos circuitos completos, a toda à volta, de cor vermelha e dourado. Vermelho, mais uma vez símbolo da Vida. Dourado símbolo da Luz e da Vida de Deus.

Os pés de Jesus estão acima de uma base negra também. É Jesus que caminha ao nosso encontro vitorioso sobre o Mal e não é engolido por ele. Tal como no relato em que Jesus caminha sobre as águas (que é outra simbologia do Mal)

Jesus é Vencedor, e Deus no-lo dá!

Apocalipse 7, 9-12
Apocalipse 5, 11-12
Apocalipse 19, 6-9
















2 comentários:

Carla Rocha disse...

Obrigada Susana pela belíssima explicação de tão belo ícone.
Este é um ícone que até possuo, comprei esta cruz um dia destes por impulso e quanto mais a contemplo mais ela fala comigo.
Obrigada.
Shalom

Susana Braguês disse...

Fico feliz por ti, Carla! Se de alguma maneira tiveres possibilidade, podes arranjar um "cantinho de oração" onde colocar o ícone...

abraço
SHALOM