sábado, 23 de abril de 2011
A Cruz
RELEMBRANDO O QUE É UM ÍCONE
- Ícone significa Imagem
- É como uma janela aberta para os mistérios de Deus
- Diz-se que um ícone é escrito porque reescreve passagens
bíblicas
- É escrito com traços simplificados e cores vivas porque
fala da fé e de um jeito novo e diferente de viver, ao jeito de Deus e do seu
Reino. Fala então de outras lógicas, diferentes das nossas.
- Para que serve?
Serve para ler as Boas Notícias do nosso Deus de maneira
mais visual e para assim ajudar a reflectir e a meditar sobre os mistérios e
pessoas neles representados.
Serve para orar diante deles como estando verdadeiramente
diante do que está representado, tendo assim para onde olhar e deixar-se olhar
por ele.
ÍCONE DA CRUZ DE S. DAMIÃO
Este ícone é bizantino, do século XII, foi encontrado por Francisco de Assis, numa igreja em ruínas dedicada a S. Damião, daí o nome do ícone ser chamado de Cruz de S. Damião. Pensa-se ser da autoria de um desconhecido iconógrafo italiano. O ícone foi elaborado em tela colada sobre madeira de nogueira e mede 1,90 m de altura e 1,20 de largura.
Não é possível apanhar toda a força da Vida que é anunciada
e festejada neste ícone sem antes ter presente os momentos que o antecedem.
Jesus foi condenado à morte. Foi assim que terminou a sua
vida cheia de opções. Porque o seu jeito de viver anunciando o Reinado de Deus
já presente, já próximo.
Foi condenado à morte para servir de exemplo a todos os que
tivessem vontade de levantar a voz contra a opressão e tudo o que desumaniza.
Jesus era visto como perigoso porque cativava multidões, e bem sabemos como é
influenciável uma multidão… bastava uma palavra de Jesus e todos pegariam em
armas para, com violência expulsar o império que os oprimia… e ficariam muito
mal também os poderes religiosos que ocupavam os seus lugares porque pactuavam
com essa opressão. Então sentiram ser urgente calar Jesus de uma vez para sempre.
Jesus foi condenado à morte pela tortura numa cruz. O meio
de tortura que conduzia à morte mais cruel e doloroso daquela época. Muitos
morreram assim às mãos dos romanos. Jesus deixou-se entrar nesse circuito de
violência, dor e morte. Deixou-se entrar porque não quis fugir – com essa
atitude negaria tudo o que tinha vivido e anunciado – e também não quis
responder com violência à violência. É por isso não o vemos resistir nos
relatos dos evangelhos, nem recuar, nem actuar, sempre com uma atitude absolutamente
desconcertante quebrando essa espiral da violência que gera violência.
COMO É QUE NOS MORREU O NOSSO JESUS?
A execução desta maneira tinha o objectivo claro de ser um
acto público para provocar a humilhação e o medo.
O local era propositadamente escolhido para chocar o maior
número de pessoas exactamente à entrada da cidade. Todos os que peregrinavam
até à cidade santa tinham que assistir àquele “espectáculo” para perceberem
qual era o resultado da má conduta diante do poder romano estabelecido.
Qualquer “herói”/mártir ou malfeitor que fosse condenado a
morrer deste modo era ridicularizado, humilhado ao extremo: os condenados eram
crucificados nus. Com Jesus não terá sido diferente.
Eram pregados pelos pulsos e pelos pés ficando assim
pendurados. O condenado vivia o tempo que conseguisse ter forças para se erguer
e poder respirar. Acabando-se as forças para se erguer morria asfixiado. Isso
podia levar mais que um dia dependendo das condições físicas do condenado e se
era necessário apressar o processo eram-lhes quebradas as pernas para que já
não pudessem erguer-se e respirar.
Certamente nos interessa saber como é que morreu alguém que
é nosso, alguém que amamos. É importante, sobretudo, ter a noção clara de que
tudo isto “doeu” mesmo a Jesus e foi mesmo humilhante (era de tal modo
vergonhoso e provocava tal medo que os discípulos fugiram todos nessa hora,
envergonhados pela humilhação, impotência do Mestre que seguiam… desiludidos
com ele.
Tendo tudo isto presente podemos então começar a ler o ícone,
porque o que temos diante de nós é o Hoje que acontece, depois da morte de
Jesus.
Textos: Apocalipse 1, 17-18; João 21, 1-14
Temos no topo do ícone alguém a quem não vemos o rosto, só a
Mão Direita num semi-círculo. É a Mão Direita de Deus, Aquele que cria e
recria, levanta e salva. É a mesma Mão que tirou o povo de Israel da escravidão
do Egipto.
É a Mão que confirma a vida inteira de Jesus e o reconhece
como Filho, por isso é a Mão que o levanta/suscita da morte e lhe dá a Vida, da
Sua Vida, da Sua Festa.
Vemos no ícone como Jesus, num permanente movimento de
subida para o Pai é acolhido pela Corte dos anjos em festa, ele é acolhido no
Seio da Família de Deus.
O jeito de viver de Jesus é reconhecido por Deus como o Seu
próprio jeito de viver e actuar, Jesus é o que cumpre o Seu projecto de maneira
absoluta.
Estes 10 anjos – número que representa a plenitude, a
perfeição, o próprio Deus – reconhecem Jesus e estão felizes com a sua chegada.
Os anjos são a personificação da acção de Deus na humanidade.
Dizer que Jesus foi ressuscitado por Deus é dizer que o Céu
se espalhou por todo o lado e por todos os tempos. É o Deus que não está só nos
Céus como que separado da Humanidade, mas está espalhado por todo o lado.
O círculo em que Jesus sobe é símbolo também de perfeição e
o vermelho vivo é o símbolo da Vida.
Leva as vestes sacerdotais porque ele é o Sumo-Sacerdote
definitivo e eterno da Nova Aliança.
JESUS COM A VESTE DAS FUNÇÕES SACERDOTAIS
Passamos agora a outro círculo que é o dourado que circunda
completamente a cabeça de Jesus como um Sol que ilumina tudo.
Os círculos aumentam de tamanho de cima para baixo como se
nos conduzissem numa importante sequência, ao nosso encontro.
O QUE SIGNIFICA DIZER QUE JESUS É SUMO-SACERDOTE?
Toda a Carta aos Hebreus fala disto porque trata da passagem
da Antiga Aliança para a Nova Aliança inaugurada por Jesus.
- Os Sacerdotes da Antiga Aliança precisavam de se separar
do povo para realizarem a sua função. MAS Jesus, o Sacerdote da Nova Aliança,
não se separa nunca do povo, pelo contrário, ele comunga plenamente com o povo,
com a Humanidade, prova de tudo, experimenta tudo como nós – menos o pecado.
- Os Sacerdotes da Antiga Aliança, antes de exercer as suas
funções em favor do povo diante de Deus, precisavam de as exercer primeiro por
si mesmos por serem eles também pecadores.
Voltavam-se para si mesmos antes de se poderem voltar para o
povo. MAS na Nova Aliança inaugurada por Jesus Sumo-Sacerdote, ele está
permanentemente voltado para o povo, em nenhum momento deixa de estar voltado
para nós porque não precisa de exercer as funções por si mesmo já que não tem
pecado.
Jesus é uma nascente contínua de Cura e de Vida.
- Todos os Sacerdotes da Antiga Aliança eram transitórios.
As suas funções terminavam. MAS a função do Sumo-Sacerdote Jesus, na Nova
Aliança, não acaba nunca e é eficaz, porque ele está vivo, connosco, SEMPRE. A
sua mediação entre Deus e os Homens não acaba nunca.
É assim que Jesus está representado no ícone… em funções.
É o Novo e definitivo David.
É o Novo e definitivo Sacerdote.
No livro do Êxodo encontramos o relato de David, que sendo
Rei e por isso Sumo-Sacerdote, usava o mesmo traje quando levava, em procissão
com todo o povo, a arca da aliança para o Templo. Pelo caminho paravam várias
vezes para fazer o ritual do sacrifício de animais, degolando-os, e depois
aspergindo o sangue pelo povo.
Aspergir sangue era um gesto de grande bênção, era um grande
dom. Como o sangue, naquela cultura, simbolizava fortemente a vida, receber o
sangue aspergido era receber vida (conhecemos a aspersão pela água baptismal,
um gesto cuja origem poderá ser esta)
Neste ícone vemos como Jesus asperge do seu próprio Sangue,
ou seja, da sua própria Vida Ressuscitada a todos sem excepção, por isso se vê
a jorrar vivo através dos sinais visíveis da sua morte.
Ele não está pregado, avança para nós, um pé a seguir ao
outro, devagar, sem nos invadir nem se impor, e oferece o Dom da sua
Vida/Sangue em abundância e continuamente a nós.
A Ressurreição de Jesus não apaga a sua história, nem Jesus
se envergonha dos sinais da sua morte. São feridas que não estão cicatrizadas,
tal como aquela ruga na testa representa o sofrimento que passou e representa
agora a plena comunhão com todos os que sofrem. Ele continua a “sangrar” com
aqueles que “sangram” porque está absolutamente em comunhão connosco.
Esses sinais são, ao mesmo tempo e de maneira plena, DOM e
COMUNHÃO.
Dom de Cura e de Vida
e Comunhão com o nosso sofrimento.
Texto: Hebreus 4,14-16
O QUADRO DAS TESTEMUNHAS
Do lado esquerdo de Jesus estão representadas as mulheres
que, nos Evangelhos, foram presença constante no seguimento de Jesus, mesmo no
momento da cruz. Aqui está Maria de Magdala e Maria mãe de Tiago que também
falam entre si.
O gesto da mão junto do queixo tanto da Mãe de Jesus, como
de Maria de Magdala parecem sugerir que todos estes mistérios as deixam
pensativas, a meditar no seu coração em tudo o que dizia respeito a Jesus.
Está presente também um Centurião Romano, o único que não
apresenta auréola, o único que não terá convivido com Jesus mas aqui faz parte
das testemunhas principais. Estaria talvez responsável pela execução de Jesus.
No momento da morte o Centurião o reconhece de alguma maneira e proclama uma
exclamação de fé:
“Verdadeiramente este homem era Filho de Deus!”
Ele olha directamente para Jesus como quem inicia agora uma
caminhada de fé de olhos postos nele.
Atrás dele vê-se uma outra figura que olha também fixamente
para Jesus e atrás deles uma multidão de pessoas que se aproximam à espera de
entrar no mistério da Vida Ressuscitada de Jesus para ver e acreditar.
Atrás do Centurião romano, pagão, está toda a “descendência”
de pagãos atrás dele, onde estamos nós também.
Duas figuras menores se apresentam abaixo, uma de cada lado.
O romano que, com a lança terá trespassado o peito de Jesus,
depois de já morto e que também tem nome segundo a tradição – Longinus.
A outra personagem é misteriosa. Não tem nome, é um ancião,
e apresenta uma atitude corporal desafiante com o rosto de perfil e é a única
personagem em todo o ícone de boca aberta.
Parece dizer:
Mt 27, 40-43
Nas antigas normas iconográficas, quando um rosto era
representado de perfil significava a personificação do Mal, da Divisão.
“Se és…” “Se ele é…” tal como nas tentações do deserto. Esta
personagem mostra-nos como Jesus é um de nós porque foi tentado em tudo, como
nós.
A boca aberta, segundo a tradição dos ícones é escandalosa
porque todos os ícones são silenciosos e convidam ao sossego e à meditação.
Esta personagem parece cheia de ruído.
GALO
Está representado sobre um circuito negro. O negro simboliza
o mal e o pecado.
Vemos como este circuito circula por todo o ícone, mas não
se completa. A vitória de Jesus sobre a Morte, o Mal e o Pecado quebra os seus
circuitos negros não os deixando atingir o seu fim último.
Vemos circuitos completos, a toda à volta, de cor vermelha e
dourado. Vermelho, mais uma vez símbolo da Vida. Dourado símbolo da Luz e da
Vida de Deus.
Os pés de Jesus estão acima de uma base negra também. É
Jesus que caminha ao nosso encontro vitorioso sobre o Mal e não é engolido por
ele. Tal como no relato em que Jesus caminha sobre as águas (que é outra
simbologia do Mal)
Jesus é Vencedor, e Deus no-lo dá!
Apocalipse 7, 9-12
Apocalipse 5, 11-12
Apocalipse 19, 6-9
sábado, 9 de abril de 2011
Ícone da Reanimação de Lázaro
![]() |
Ícone Russo da Escola de Novgorod
séc XV
|
“… ao chegar Jesus encontrou-o sepultado havia quatro dias. Betânia ficava perto de Jerusalém, a quase uma légua. E muitos judeus tinham ido visitar Marta e Maria para as consolarem a respeito do irmão. Quando Marta ouviu dizer que Jesus chegava, foi ao encontro dele, mas Maria estava sentada em casa.
Marta disse, então, a Jesus: «Senhor, se Tu estivesses aqui, o meu irmão não teria morrido; mas, também sei que agora, as coisas que pedires a Deus, Ele tas dará.»
Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará.»
Marta respondeu-lhe: «Eu sei que ele há-de ressuscitar na ressurreição do último dia.»
Disse-lhe Jesus: «Eu sou a Ressurreição e a Vida; o que crê em mim, mesmo que se morrer, viverá, e todo o que vive e crê em mim não morrerá para sempre; crês nisto?»
Ela respondeu-lhe: «Sim, Senhor; eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que ao mundo vem.»
Dito isto, ela partiu e foi chamar sua irmã, Maria, secretamente dizendo: «O Mestre está aqui e chama-te.» Assim que ela ouviu isto, levantou-se depressa e foi ter com Ele; Jesus ainda não tinha chegado à aldeia, mas estava ainda no lugar onde Marta lhe viera ao encontro. Então, os judeus que estavam com Maria, em casa e a consolavam, ao ver que se levantou depressa e saiu, seguiram-na, pensando que se dirigia ao túmulo para aí chorar.
Quando Maria chegou ao sítio onde estava Jesus, mal o viu caiu-lhe aos pés e disse-lhe: «Senhor, se Tu estivesses aqui, o meu irmão não teria morrido.»
Ao vê-la a chorar e os judeus que a acompanhavam a chorar também, Jesus suspirou profundamente e comoveu-se, e disse: «Onde o pusestes?» Responderam-lhe: «Senhor, vem e vê.»
Jesus chorou. Diziam os judeus: «Olhem como era seu amigo!»
Alguns deles diziam: «Então, este que deu a vista ao cego não podia também fazer com que este não morresse?»
Jesus, suspirando de novo intimamente, vem para ao túmulo. Era uma gruta e uma pedra estava colocada sobre ela.
Disse Jesus: «Tirai a pedra.»
Marta, a irmã do morto, disse-lhe: «Senhor, já cheira mal porque é o quarto dia.»
Jesus replicou-lhe: «Eu não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?» Então tiraram a pedra.
Jesus, levantando os olhos ao alto, disse: «Pai, dou-te graças porque me ouvistes. Eu já sabia que sempre me ouves, mas Eu disse isto por causa da gente que me rodeia, para que venham a crer que Tu me enviaste.»
Dito isto, bradou com voz forte: «Lázaro, vem para fora!» O que estava morto saiu de mãos e pés atados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário. Jesus disse-lhes: «Desligai-o e deixai-o ir.»”
Jo 11, 17-44
Sob um olhar atento...
Não é possível entender o que está escrito neste ícone sem ter uma noção minimanente clara do que o evangelista João escreveu no seu anúncio da Boa Notícia.
Este Icone diz claramente como a Vida de Jesus vence a Morte. Um dualismo aqui presente como num diálogo entre dois coros, o grupo da direita e o grupo da esquerda. E quando digo que Jesus "vence" no presente é mesmo isso. O Espírito de Deus está a "mexer", não pára, de maneira misteriosamente contínua, permanentemente actua através do "braço de Deus" na Vida de Jesus Vivo.
Este escrito em traços e cores fala o que diz João: Este é Jesus já ressuscitado por Deus, que chora e comove-se com os que choram e se comovem com a partida daqueles que mais amam. Não lhe metem medo, não lhe causam impressão nenhuma e menos ainda são obstáculo para ele os maus cheiros da podridão de qualquer morte nossa.
Aqui está o ponto de encontro entre o cortejo da Vida e o cortejo da Morte.
É Jesus que vai à frente, seguido dos discípulos, a encabeçar o primeiro coro.
No segundo coro estão os judeus que acompanham e consolam as irmãs de Lázaro que estão mais abaixo Maria e Marta. Entre as irmãs e o grupo dos judeus está o jovem que retira a pedra da entrada do túmulo.
Por último, Lázaro.
Apenas duas pessoas são representadas com o halo dourado ao redor da cabeça. Jesus ressuscitado e aquele que ele reanima.
Toda a cena fala destas figuras principais. Na verdade este é uma catequese escrita para catecumenos, para aqueles que se preparavam para receber o baptismo de Jesus. Esta é uma catequese sobre fazer morrer o Homem Velho (segundo diz S.Paulo) e fazer viver o Homem Novo.
Sabemos que este é o momento em que Jesus fala em voz alta e com autoridade "Lázaro, vem para fora!", no entanto Jesus está de boca fechada, como é típico de todos os ícones.
Os rostos serenos, indignados ou incrédulos, ainda que de boca fechada "dizem" tudo, todos os pormenores e gestos falam silenciosamente e nos convidam assim ao Silêncio e à Contemplação do Mistério da Vida e da Morte.
Jesus tem o seu braço estendido... e esta expressão "braço estendido" remete-nos imediatamente a outro relato bíblico.
"Eu sou o Senhor, e vos farei sair do peso dos carregamentos do Egipto, hei-de libertar-vos da sua servidão e resgatar-vos com braço estendido e com grande autoridade" Ex 6,6
Será aquele jovem, o jovem povo de Israel, que na sua mocidade era escravo e carregava pedras no Egipto? Estava como que condenado à morte, inclinado por causa do peso da escravidão.
Que braço estendido e que voz poderosa é aquela senão a do próprio Deus que, através de Jesus ressuscitado, resgata o seu povo?
O gesto da Mão que ordena com autoridade e liberta ("Lázaro, sai para fora"; "Desligai-o e deixai-o ir") é exactamente o centro de todo o Ícone.
(A figura deste braço e mão, teremos oportunidade de os rever em inúmeros ícones como única representação de Deus Pai)
Prostradas, em sentido contrário ao do jovem prostrado, estão Maria e Marta.
Marta é aquela que se mostra pensativa como que a duvidar e a interrogar-se. Maria está numa atitude totalmente adorante, é mais uma vez aquela que se coloca aos pés de Jesus (Lc 10,39; Jo 12,3) (de mãos cobertas - na tradição bizantina é um profundo sinal de respeito).
Entre os judeus destaca-se aquele que mostra a Jesus com o seu gesto do quanto já cheira o corpo em decomposição, nem se dando conta de que Lázaro está de pé e de olhos abertos, de que está vivo.
Também se destaca aquele judeu que apresenta uma mão coberta (sinal de respeito e fé), mas a outra mão parece querer interpelar Jesus.
Num grupo mais pequeno atrás, os judeus parecem murmurar entre si acerca do que se passa, talvez a planear a condenação de Jesus (Jo 11,45-49).
Um outro judeu se destaca, aquele cuja mão parece querer afastar/recusar a mão estendida de Jesus, este não tem os olhos postos em Jesus.
Sob um olhar orante...
Quase ouço Jesus dizer:
A ti, que te chamo pelo nome, digo com autoridade: "Sai para fora desse 'Egipto'!"
Deixa que os teus irmãos de caminhada te ajudem a desligar-te de todas as mortes e escravidões que te prendem e não te deixam viver...
Vai...
Nunca te deixes morrer sozinho numa gruta qualquer de isolamento sem sentido, fechado por fora, de tal maneira que já nem tu próprio consigas abrir de novo a porta.
Sim, às vezes a tua podridão já cheira mal por tantos dias que te deixas estar morto, mas nem isso me impede de acreditar em ti, de apostar em ti, de esperar de ti o melhor que és.
Sou eu mesmo que peço aos teus irmãos: "Tirem a pedra"
A ti, que te chamo pelo nome, digo com autoridade: "..........., sai para fora desse 'Egipto'!"
Sou eu mesmo que digo aos teus irmãos: "Desliguem-no e deixem-no ir"
domingo, 6 de março de 2011
Entrada de Jesus em Jerusalém
"Exulta de alegria, filha de Sião!
Solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém!
Eis que o teu rei vem a ti;
Ele é justo e vitorioso;
vem, humilde, montado num jumento,
sobre um jumentinho, filho de uma jumenta.
Ele exterminará os carros de guerra da terra de Efraim
e os cavalos de Jerusalém;
o arco de guerra será quebrado.
Proclamará a paz para as nações.
O seu império irá de um mar ao outro
e do rio às extremidades da terra." Zc 9,9-10
"Estando próximos de Jerusalém, perto de Betfagé e de Betânia, junto ao Monte das Oliveiras, Jesus enviou dois dos seus discípulos e disse-lhes: «Ide à povoação que está em frente de vós e, logo que nela entrardes, encontrareis um jumentinho preso, que ainda ninguém montou. Soltai-o e trazei-o. E se alguém vos perguntar: 'Porque fazeis isso?' respondei: 'O Senhor precisa dele;' e logo o mandará de volta.»
Partiram e encontraram um jumentinho preso junto de uma porta, do lado de fora, na rua, e soltaram-no. Alguns que ali se encontravam disseram-lhes: «Que é isso de soltar o jumentinho?» Responderam como Jesus tinha dito e eles deixaram-nos ir. Levaram o jumentinho a Jesus, lançaram-lhe por cima as capas e Jesus montou nele. Muitos estenderam as capas pelo caminho; outros, ramos de verdura que tinham cortado nos campos. E tanto os que iam à frente como os que vinham atrás gritavam:
Hossana!
Bendito seja o que vem em nome do Senhor!
Bendito o Reino do nosso pai David que está a chegar.
Hossana nas alturas!" Mc 11,1-10
"as multidões que tinham chegado para a Festa, ao ouvirem que Jesus vinha a Jerusalém, pegaram em ramos de palmeiras e saíram-lhe ao encontro, clamando: «Hossana! Bendito o que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel!» E Jesus encontrou um jumentinho e montou nele, conforme está escrito:
Não temas, Filha de Sião,
olha o teu Rei que chega
sentado na cria de uma jumenta.
Ao princípio, os seus discípulos não compreenderam isto; quando se manifestou a glória de Jesus, é que se lembraram que estas coisas estavam escritas acerca dele; e foi isso precisamente o que lhe fizeram.
Entretanto, as pessoas que tinham estado com Ele quando chamou Lázaro do túmulo e o ressuscitou dos mortos testemunhavam o que viram. 18E a gente, ao ouvir dizer que tinha realizado aquele sinal milagroso, veio ao seu encontro.
Então, os fariseus disseram uns para os outros: «Não vedes que não estais a conseguir nada? Olhai como toda a gente se foi com Ele!»" Jo 12,12-13
Sob um olhar atento...
No centro está Cristo, Jesus já ressuscitado por Deus.
Vai sentado sobre um jumento como quem vai sentado num trono. O jumento branco, cor da pureza, da beleza e da vitória. Parece flutuar, parece que as patas do jumento não tocam o chão.
Este é então o cortejo da Vitória da Vida sobre a Morte. E dirige-se para uma Jerusalém que já não é a terrena, mas a celeste. Todo o cortejo apresenta semelhanças com a entrada triunfal de um rei que, depois de uma batalha, entra na sua cidade e é aclamado pelo povo em festa, montado num belíssimo e elegante cavalo.
Atrás de Jesus seguem à frente do grupo, Pedro e talvez Tomé ou João. Pedro parece falar para o grupo que o segue e aponta para Jesus. Todos levam rostos assustados.
À entrada de Jerusalém recebem Jesus os doutores e escribas, à frente dos restantes habitantes de Jerusalém. No meio deles, dois conversam entre si, como que a murmurar já contra Jesus.
Outro grupo de pessoas aparece disperso em todo o ícone, são as crianças, os pequenos, quase todos de vestes brancas, mais parecem adultos em miniatura. Lembra uma das imagens do livro do Apocalipse: “apareceu na visão uma multidão enorme que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé com túnicas brancas diante do trono e diante do Cordeiro, e com palmas na mão. Aclamavam em alta voz:
«A salvação pertence ao nosso Deus,
que está sentado no trono,
e ao Cordeiro.»” Ap 7,9-10
Acima, em segundo plano, está um monte, uma árvore e a cidade de Jerusalém.
É o monte das oliveiras, e nele mais abaixo vê-se uma sepultura escavada na rocha. É na sepultura que Jesus tem fixo o olhar. Sabemos que é no monte das Oliveiras que está o jardim, Getsémani, onde Jesus gostava de orar, e onde terá sido preso.
A árvore lembra aquela outra, a árvore da Vida, do Livro do Princípio (Génesis), simboliza também a árvore da Morte, o madeiro da cruz, aquela árvore onde Jesus foi crucificado.
Particularmente neste ícone estão três crianças, a árvore que parece ser uma palmeira é flamejante. Lembra talvez o episódio bíblico dos três jovens condenados à fornalha pelo rei Nabucodonosor por se recusarem a adorar outros deuses
“Os três jovens, então, não tiveram senão uma só voz para louvar, glorificar e bendizer a Deus, na fornalha, com este cântico:
«Bendito sejas, Senhor, Deus de nossos pais:
- digno de louvor e glória eternamente!
Bendito seja o teu nome santo e glorioso:
- digno de supremo louvor e exaltação eternamente!
Bendito sejas no templo da tua santa glória:
- digno de supremo louvor e glória eternamente!
Bendito sejas por penetrares os abismos,
sentado sobre os querubins:
- digno de supremo louvor e exaltação eternamente!
Bendito sejas no teu trono real:
- digno de supremo louvor e exaltação eternamente!
Bendito sejas no firmamento dos céus:
- digno de supremo louvor e glória eternamente!
Obras do Senhor, bendizei todas o Senhor:
- a Ele a glória e o louvor eternamente!” Dn 51,57
Vendo o rei que os três jovens e ainda um anjo do Senhor passeavam no meio das chamas sem que estas os queimassem “tomando a palavra, disse:
«Bendito seja o Deus de Chadrac, de Mechac e de Abed-Nego! Ele enviou o seu anjo para libertar os seus servos que, confiando nele, expuseram a vida, transgredindo as ordens do rei, antes que prostrarem-se em adoração diante de um outro deus que não fosse o Deus deles. Estabeleço, pois, esta ordem: 'Em qualquer povo, nação ou língua, todo aquele que disser alguma coisa de mal contra o Deus de Chadrac, de Mechac e de Abed-Nego, será feito em pedaços e a sua casa reduzida a um montão de imundícies, porque não há outro Deus capaz de realizar uma tal libertação'.»” Dn 3,95-96
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Apresentação de Jesus no Templo
Quando se completaram os oito dias, para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus indicado pelo anjo antes de ter sido concebido no seio materno.
Quando se cumpriu o tempo da sua purificação, segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor, conforme está escrito na Lei do Senhor: «Todo o primogénito varão será consagrado ao Senhor» e para oferecerem em sacrifício, como se diz na Lei do Senhor, duas rolas ou duas pombas.
Quando se cumpriu o tempo da sua purificação, segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor, conforme está escrito na Lei do Senhor: «Todo o primogénito varão será consagrado ao Senhor» e para oferecerem em sacrifício, como se diz na Lei do Senhor, duas rolas ou duas pombas.
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(pormenor de um tríptico)
Apresentação de Jesus no Templo,
séc XII, no Mosteiro de Sta. Catarina do Sinai
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Ora, vivia em Jerusalém um homem chamado Simeão; era justo e piedoso e esperava a consolação de Israel. O Espírito Santo estava nele. Tinha-lhe sido revelado pelo Espírito Santo que não morreria antes de ter visto o Messias do Senhor.
Impelido pelo Espírito, veio ao templo, quando os pais trouxeram o menino Jesus, a fim de cumprirem o que ordenava a Lei a seu respeito.
Simeão tomou-o nos braços e bendisse a Deus, dizendo:
«Agora, Senhor, segundo a tua palavra,
deixarás ir em paz o teu servo,
porque meus olhos viram a Salvação
que ofereceste a todos os povos,
Luz para se revelar às nações
e glória de Israel, teu povo.»
Seu pai e sua mãe estavam admirados com o que se dizia dele.
Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua mãe: «Este menino está aqui para queda e ressurgimento de muitos em Israel e para ser sinal de contradição; uma espada trespassará a tua alma. Assim hão-de revelar-se os pensamentos de muitos corações.»
Havia também uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser, a qual era de idade muito avançada. Depois de ter vivido casada sete anos, após o seu tempo de donzela, ficou viúva até aos oitenta e quatro anos. Não se afastava do templo, participando no culto noite e dia, com jejuns e orações. Aparecendo nessa mesma ocasião, pôs-se a louvar a Deus e a falar do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém.
Depois de terem cumprido tudo o que a Lei do Senhor determinava, regressaram à Galileia, à sua cidade de Nazaré.
Lc 2, 21-39
Sob um olhar atento...
Entre os nossos irmãos ortodoxos esta
Festa da Apresentação de Jesus no Templo é também chamada de Festa do
Encontro. É o encontro da humanidade com Cristo. É o encontro entre a Antiga
Aliança e a Nova Aliança inaugurada por Jesus.
É o Encontro entre o Homem Velho, Simeão, e o Homem Novo, Jesus.
É o Encontro entre o Homem Velho, Simeão, e o Homem Novo, Jesus.
Todo o ícone é luminoso. O menino está
vestido de luz. A Luz chegou, tal como diz Simeão.
Nele vemos Maria a oferecer Jesus,
de braços estendidos, a Simeão e Ana, anciãos que o acolhem com alegria. José,
um passo atrás, leva as duas pombas para cumprir o ritual.
Todo o conjunto nos sugere o
passo de uma procissão em direcção ao Templo.
Em segundo plano podemos
observar a arquitectura com a habitual despreocupação das proporções e em que
se notam as linhas da perspectiva dos edifícios a apontar para a figura central
do ícone, Maria.
Acima, o véu do Templo,
aberto com a chegada desta “procissão”.
Simeão e Ana, anciãos, ao
mesmo tempo que nos podem fazer lembrar Adão e Eva a acolherem Jesus Salvador,
são também, nesta passagem de Lucas, chamados de profetas. Fazem, portanto,
parte dessa linhagem tão importante na História da Salvação do povo que, atenta,
espera e anuncia a chegada do Messias.
Ana olha directamente para
quem observa o Ícone, e aponta-nos para o Encontro.
Curiosamente, de maneira
especial neste belíssimo segundo ícone, podemos reparar na figura de José como
alguém que se encaminha, hesitante e desajeitado, talvez também deslumbrado, em
direcção ao Mistério. Reparemos no pormenor dos seus pés… ele pisa
inadvertidamente um pé de Ana.
Outro pormenor importante,
sob um olhar mais atento, é o que me parece ser um livro caído entre Maria e o
menino que, pela disposição das mãos, parece ser Maria, a grande fiel e cumpridora da Antiga Aliança e a resposta à espera atenta da chegada do Messias, que deixa cair. Será a Antiga Lei? que, depois de cumprido o seu tempo é deixada aí, junto da arca, para acolher a Nova Aliança... e que pela sua fidelidade atenta, estende os braços, e acolhe Jesus que traz a Nova Lei, a do Amor, com a Nova e eterna Aliança entre Deus e a humanidade...
A figura de Simeão com Jesus nos
braços é iconograficamente rara. Neste abraço vemos uma versão masculina do
Ícone da Ternura que retrata Maria com Jesus. Os ícones em que apenas aparece
Simeão representado com o menino têm inscrições como por exemplo: “Aquele que
leva Deus ao colo” ou “Aquele que acolhe o Senhor”.
O vaso de flores:
Na tradição da iconografia mais antiga, aquele pote seria o que Maria carregava para ir buscar água à fonte no momento em que lhe foi anunciado pelo anjo o nascimento de Jesus.
Aqui o vaso aparece florido. Pode levar-nos a lembrar que o tempo de deserto acabou. Chegou a salvação de Deus na Nova Aliança.
"Abra-se a terra para que floresça a salvação" Is 45,8
"Floriu a vara de Jessé" Is 11,1
Talvez se possa ver também uma referência ao cântaro que a samaritana levava para ir buscar água (Jo 4). Jesus é a água viva, já não é preciso saciar a sede nas antigas fontes.
Floresceu e deu fruto a fertilidade/fecundidade da procura/atenção, da espera do enviado de Deus, e Maria é a imagem do resto fiel que deu esse salto deixando cair Antiga Aliança com o seu Templo e as sua Lei para agarrar Nova Aliança que tem o rosto de Jesus.
O vaso de flores:
Na tradição da iconografia mais antiga, aquele pote seria o que Maria carregava para ir buscar água à fonte no momento em que lhe foi anunciado pelo anjo o nascimento de Jesus.
Aqui o vaso aparece florido. Pode levar-nos a lembrar que o tempo de deserto acabou. Chegou a salvação de Deus na Nova Aliança.
"Abra-se a terra para que floresça a salvação" Is 45,8
"Floriu a vara de Jessé" Is 11,1
Talvez se possa ver também uma referência ao cântaro que a samaritana levava para ir buscar água (Jo 4). Jesus é a água viva, já não é preciso saciar a sede nas antigas fontes.
Floresceu e deu fruto a fertilidade/fecundidade da procura/atenção, da espera do enviado de Deus, e Maria é a imagem do resto fiel que deu esse salto deixando cair Antiga Aliança com o seu Templo e as sua Lei para agarrar Nova Aliança que tem o rosto de Jesus.
Sob um olhar orante...
"O Criador do Adão é levado como menino,
Aquele que ninguém pode conter, deixou-Se conter nos braços de um velho."
" A Simeão que estava quase a abandonar este mundo efémero,
foste apresentado como menino, quando ele te conhecia como Deus perfeito,
e ficou atónito pela tua inefável sabedoria,
e com ele também toda a natureza angélica ficou surpreendida pela grande obra da tua Encarnação,
porque via Aquele que é inacessível como Deus,
acessível a cada um como homem, conversar connosco e escutar-nos a todos."
Hino Akathistos
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Pantocrator - Aquele que tudo governa
Olhar...

Descrever...
O ícone identifica a pessoa representada através das iniciais IC XC nos cantos superiores.
Predomina a luminosidade do Dourado, cor que simboliza a Luz e a Divindade.
Num tom suave vê-se o halo dourado a rodear a cabeça indicando que se trata da imagem de um homem de Deus, a cruz sobre esse halo, indica que é Cristo.
Apresenta o rosto voltado para a frente. Frontalidade significa presença, contacto directo com quem o contempla. (Quando, em ícones, os rostos são representados de perfil significa que não teriam alcançado ainda a santidade)
Os olhos são profundos, fixos, sérios, atentos.
O nariz é alongado que obriga a que o conjunto do rosto transmita paz e serenidade.
São representadas as orelhas para indicar que esteve e está atento escutar
A boca, tal como é comum em todos os ícones, é representada muito pequena, e está sempre como que fechada, transmitindo-nos silêncio, sossego
Apresenta orelhas
Apresenta orelhas
As faces apresentam-se vermelhas e todo o rosto é moreno.
O pescoço, tal como também é comum por vezes mesmo exageradamente na iconografia para representar Cristo, é muito alongado. O pescoço é exactamente o centro de todo o ícone.
A mão direita abençoa.
A mão esquerda segura o livro com a inscrição “Eu sou a luz do mundo, o que me segue jamais andará na escuridão, mas terá a Luz da Vida”
O manto é azul (é a cor do infinito do céu e o símbolo da eternidade)
A túnica é púrpura Imperial (significa poder e testemunha de consagração. Os sacerdotes e reis vestiam vestes de cor púrpura sendo, portanto, a cor das mais altas dignidades. No tempo de Bizâncio, esta cor era de uso exclusivo dos imperadores)
Acima de tudo Cristo é representado muito vivo, pleno de energia.
Interpretar...
Interpretar...
Este é essencialmente um ícone cheio de luz.
Essa é a razão pela qual predomina o dourado, para reflectir toda a luz que receba.
A luz é aqui a “parábola” para falar do jeito de Deus estar connosco, através de Jesus.
No Evangelho segundo Lucas vemos como Jesus é escrito nos braços de Simeão exultante, no Templo, dizendo que é ele a Salvação, a Luz para todos.
Todo prólogo do Evangelho segundo João nos diz como ele é a Vida e a Luz verdadeira que brilha nas trevas (sinónimo de morte) e a todos ilumina.
É Cristo totalmente de rosto voltado para aquele que o observa.
Tem ouvidos atentos
O centro do ícone, a garganta, um lugar vital segundo o pensamento bíblico era aqui o lugar da respiração, o sopro que Deus havia insuflado pelas narinas do Adão moldado do barro, na narrativa sobre a origem do ser humano (Génesis)
Essa é a razão pela qual predomina o dourado, para reflectir toda a luz que receba.
A luz é aqui a “parábola” para falar do jeito de Deus estar connosco, através de Jesus.
No Evangelho segundo Lucas vemos como Jesus é escrito nos braços de Simeão exultante, no Templo, dizendo que é ele a Salvação, a Luz para todos.
Todo prólogo do Evangelho segundo João nos diz como ele é a Vida e a Luz verdadeira que brilha nas trevas (sinónimo de morte) e a todos ilumina.
É Cristo totalmente de rosto voltado para aquele que o observa.
Tem ouvidos atentos
O centro do ícone, a garganta, um lugar vital segundo o pensamento bíblico era aqui o lugar da respiração, o sopro que Deus havia insuflado pelas narinas do Adão moldado do barro, na narrativa sobre a origem do ser humano (Génesis)
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Pentecostes
A Festa do Pentecostes é vivida pelos judeus como a Festa das Colheitas.
Era uma festa de origem agrícola que, fazendo parte da vida e da história de um povo, foi associado simbolicamente a momentos importantes para reavivar a memória, como foi a Aliança de Deus com o seu povo no Sinai, com a entrega do Dom que foram as tábuas da Lei.
Entre os discípulos de Jesus, sendo um dia em que se celebram os primeiros frutos, os primeiros Dons das Colheitas, e a Aliança de Deus com o seu povo, viram como neste dia podiam fazer memória e festa do Dom do Espírito, Fruto de Deus inteiro, sinal da Nova Aliança de Deus com o Seu Povo encabeçado por Jesus. Agora já não é o dom, aquele sinal das tábuas da Lei que se celebram mas sim o Dom, a Pessoa do Espírito de Deus. É o próprio Deus que Se faz Dom e Se dá plenamente.
Nome do ícone: “Pentecostes”
Movimentos sugeridos: Parece que tudo desce. A figura que se forma é um triângulo, e de modo inconsciente, somos levados para baixo, para fixar o nosso olhar na zona escura em baixo.
Exactamente no centro: está um lugar vazio. O lugar de Jesus, no meio dos 12 Apóstolos, não é ocupado por ninguém.
Cores: Predominam o dourado e o vermelho significando que se trata de uma passagem bíblica de extrema importância. A mancha escura, de onde surge a figura de um rei, não é negra.
A cor negra, nos cânones antigos de elaboração dos ícones, não era permitida por representar a morte, o caos, a desordem. Certamente estará aqui um tom de azul muito escuro, tom esse que, ainda assim, é raramente representado na iconografia. Aparece em alguns ícones da Ressurreição de Jesus (Descida aos Infernos) por exemplo.
Figuras e objectos: Da extremidade do topo vemos descer 12 raios, é o símbolo do Espírito Santo a derramar-Se do alto.
Os edifícios que estão atrás, possuem cortinas, sinal de que a cena acontece dentro de casa.
Estão representadas 12 personagens em semicírculo, em baixo a sair da escuridão está a figura de um rei.
Imediatamente pensamos que estes 12 serão certamente os 12 discípulos mais próximos de Jesus, escolhidos por ele para o seguir, aqueles convocados por Jesus tal como lemos nos evangelhos. Curiosamente estas 12 personagens não correspondem aos 11 ou 12 apóstolos que o acompanharam antes da sua Morte e Ressurreição.
Um deles é certamente Paulo que, neste ícone, é o primeiro no topo, do lado direito com a sua tradicional barba e calvície. Neste ícone é o único que leva entre as suas mãos um Livro. O olhar de Paulo parece estar fixo em Pedro presente do outro lado que por sua vez parece apontar para Paulo, talvez num gesto, prudentemente discreto, de confirmação. Sabemos como Paulo era um fariseu rigoroso, que havia perseguido os primeiros discípulos de Jesus e, tendo assumido a Boa Notícia de Jesus tornou-se um Apóstolo dele. Não tendo esta conversão grande aceitação entre os judeus saiu a anunciar o Evangelho aos gentios (a todos aqueles que não eram judeus)
Neste ícone todas as outras personagens levam um rolo, sinal da autoridade do ensino e do anúncio da Boa Notícia de Jesus.
Outro aspecto importante que não é claro neste ícone em particular, mas aparece em muitos outros, é que no meio destes 12, além de Paulo, outros 4 levam um livro também. Uma referência clara aos 4 evangelistas Marcos, Mateus, Lucas e João. Nem todos eles teriam convivido com Jesus antes da sua Morte e Ressurreição, e menos ainda terão sido do grupo dos 12 mais próximos.
Neste contexto do Pentecostes, ou seja, de uma incrível manifestação do Espírito de Deus que deixa inflamadas… em fogo, as línguas que falam e anunciam e também as penas que escrevem e deixam por escrito o seu testemunho, não é coisa só daqueles que viveram próximos de Jesus, aqueles 12 em especial, mas de todos aqueles que se abriram e acolheram a abundância do Espírito,
o Espírito de Deus, a Ruah, que é para todos.
O número 12 permanece, como referência aos 12 próximos de Jesus, como referência a todo o significado que este número leva, como o dos representantes das 12 tribos de Israel.
A sua disposição, em semicírculo, dá também a impressão de Unidade. É um símbolo da Igreja de todos os tempos
A misteriosa personagem que surge em baixo traz a coroa e as vestes de um rei. Leva nas mãos um grande lençol branco com 12 rolos, que serão mais uma referência ao Anúncio dos 12 Apóstolos.
O significado deste ancião não é claro. É chamado de “O Cosmos” (o mundo).
Neste espaço, em ícones anteriores, aparecia representado um aglomerado de diferentes povos. Talvez este velho rei seja uma representação de todos os povos e culturas que tinham como ponto em comum o Imperador Bizantino. Esta hipótese baseia-se também no semicírculo que envolve o rei.
Na arquitectura das Igrejas da Síria e Caldeia havia uma tribuna com esta forma, semicírculo, que estava no centro da igreja, com uma pequena balaustrada baixa (como estamos mais ou menos acostumados a ver nos Tribunais, o lugar do réu), aberta para o lado onde estava o povo. Era aqui que era proclamada, entregue, a Palavra pelo celebrante. E tal como o fundo escuro sugere, a Palavra que nos arranca da escuridão/ da morte, e nos leva/ nos dá, à Luz.
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