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domingo, 20 de fevereiro de 2011

Cor e LUZ






Em qualquer ícone que encontramos, o que mais nos cativa, são as cores vivas que dão dinamismo ao que nele está representado… como se a personagem ou acontecimento estivessem ali vivos, bem presentes, diante dos nossos olhos.

Qualquer pintura reflecte mais ou menos luz dependendo do tipo de pigmento utilizado. Mas, no caso do Ícone há sempre algum rigor na escolha dos pigmentos coloridos para a sua escrita. São sempre usados pigmentos naturais pois estes possuem uma enorme variedade de tamanhos de partículas, ao contrário dos pigmentos artificiais. Os tamanhos diversos dessas partículas é uma das características que permite um maior índice de refracção da luz recebida, o que as torna capazes de absorver e espalhar/reflectir uma maior quantidade de luz.
O efeito é um maior brilho. Esse efeito é acentuado com traços de branco puro habitualmente usado na face e nas mãos da pessoa representada no ícone. Também o dourado é uma presença assídua, algumas vezes no fundo, nos resplendores ou auréolas e em discretos traços nas bordas das roupagens.

De facto, a Luz é uma constante do Ícone porque é um dos símbolos mais fortes do mundo divino. De alguma maneira mais ou menos evidente a Luz “que não é deste mundo” está sempre presente no Ícone.

O Verbo era a Luz verdadeira,
que, ao vir ao mundo,
a todo o homem ilumina.
Ele estava no mundo e por Ele o mundo veio à existência,
mas o mundo não o reconheceu.
Veio para o que era seu,
e os seus não o receberam.
Mas, a quantos o receberam,
aos que nele crêem,
deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.”
Jo 1,9-12


A Luz representada no Ícone, porque é do mundo divino, não projecta sombra. No mundo de Deus tudo está imerso na sua Luz. É uma luz que nunca é exterior, capaz de lançar sombras mas, sendo luz da graça divina, transforma tudo, edificações e paisagens, ilumina interiormente (de dentro para fora) aquilo e aqueles que são de Deus.

O fundo do Ícone é muitas vezes chamado de “luz”, onde é habitualmente utilizado o dourado ou o vermelho, servindo justamente para colocar a personagem ou o acontecimento todo “à luz” da visão divina.








quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Simbologia dos Ícones de Cristo Salvador

1 - Halo com a cruz - Símbolo da santidade, da luz de Deus nele reflectida. O halo com a cruz nele inscrita é somente atribuído a Jesus. Habitualmente, nos braços dessa cruz, estão inscritas as letras gregas оωн significam: "Aquele que é" referindo-se ao livro do Apocalipse 1,8 "Eu sou o Alfa e Omega, aquele que é, que era e que há de vir", e também referindo-se à resposta dada por Deus a Moisés no livro do Êxodo 3,14 "EU SOU O QUE É/ESTÁ"

2 - Himation - O manto, tal como usavam os gregos, preso no ombro esquerdo desce pelo corpo. Habitualmente é representado na cor azul escuro, simbolizando a divindade de Cristo.

3 - Chiton - Túnica, habitualmente na cor vermelha, simbolizando a humanidade de Cristo.

4 - Clavus - A faixa que desce do ombro direito de Cristo, habitualmente em ouro era usado na antiga Roma somente pelos Senadores, ainda no tempo de Bizâncio era símbolo da aristocracia.

5 - Livro ou Pergaminho - Contém sempre alguma palavra da Bíblia

6 - Inscrições IC XC - São a abreviatura do nome de Jesus em Grego ΙΗΣΟΥΣ ΧΡΙΣΤΟΣ que em grego medieval se escreve "IHCOYC XPICTOC" (o "Σ" em grego medieval escreve-se "C"). Daqui se usam apenas a primeira e última letra de cada palavra.








quinta-feira, 8 de abril de 2010

Como se começa a escrever um Ícone?







A elaboração de ícones religiosos é uma arte que necessita não só de uma grande preparação técnica mas também espiritual.

No passado, os iconógrafos eram na grande maioria monges, ou seja, acostumados a uma intensa vida de oração, silêncio, ascese, jejum. Eles viviam mergulhados no mundo espiritual. Considerava-se então que eles podiam melhor exprimir o rosto e o mistério de Deus. O costume da oração e da disciplina monástica tornavam-se, assim, importantes componentes da acção do artista.

A igreja ortodoxa, ao lado de várias ordens dos santos: confessores, mártires, doutores, virgens, coloca também os santos iconógrafos, cuja arte é considerada um testemunho evidente de santidade. Entre eles encontra-se o Santo Andrej Rublev, canonizado pela Igreja eslava.
Nos nossos dias não há a exigência de que o iconógrafo seja monge, mas deve estar ligado à sua Igreja local e deve ter uma vida de oração.
Sem oração, o iconógrafo encontra-se morto para o mundo espiritual e ainda que possuísse perfeitamente a técnica do ícone, a sua obra sempre seria sem alma.

Todos estes aspectos tornavam evidente que o Ícone não resultava só da mão ou inteligência ou sensibilidade artística daquele que escrevia o Ícone porque, em oração, durante a escrita do Ícone, procurava estar permanentemente consciente da presença de Deus e dos Seus Santos que iam inspirando a elaboração do Ícone.
Não era, então, conveniente assinar a obra. Aquele que escrevia o Ícone despojava-se desse mérito que reconhecia não ser totalmente seu.

Enquanto é executada a obra, mentalmente, invoca-se ininterruptamente o nome de Jesus, na breve oração:
“Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, tende piedade de mim”
É a súplica do cego de Jericó, que pede a capacidade para ver: Lc 18,38

Eis algumas normas, mais espirituais, que era necessário seguir:
- Antes de iniciar o trabalho, faz o sinal da cruz, ora em silêncio e perdoa os teus inimigos;
- Conserva o teu espírito longe das distracções e o Senhor estará perto de ti;
- Cuida de cada detalhe do teu ícone como se trabalhasses diante do próprio Senhor;
- Quando escolheres uma cor, eleva interiormente as tuas mãos ao Senhor e pede conselho;
- Não sejas invejoso do trabalho do teu próximo;
- Quando terminares o teu Ícone, agradece ao Senhor, porque a Sua misericórdia te concedeu a possibilidade de pintar os Santos Reflexos/Imagens;
- Sejas tu mesmo, o primeiro a orar diante do teu Ícone;
- O teu trabalho deve ser de felicidade;
- Lembra-te que serves, comunicas e cantas a Glória do Senhor através do teu Ícone.

Os antigos manuais de Iconografia sugerem várias orações para o momento em que o Iconógrafo inicia o seu trabalho.
Deixo aqui uma das mais belas que encontrei, e faço também minha esta oração, no início desta “viagem”:

“Oh Divino Mestre! Apaixonado artífice de toda a criação. Ilumina o olhar do teu servo, guarda o seu coração, rege e governa a sua mão para que, dignamente e com perfeição, possa representar a Tua Santa imagem. Para a glória, a alegria e a beleza da Tua Santa Igreja”










quinta-feira, 1 de abril de 2010

Uma Janela para o Invisível

pormenor do ícone da festa da Apresentação de Jesus no Templo, séc XV

Uma Janela para o Invisível!...

É uma das expressões mais usadas pelos nossos irmãos ortodoxos para falar dos Ícones.
Já há muito tempo que eu queria fazer esta “viagem” à procura da Beleza Iconográfica, ainda tão escondida aos olhos ocidentais… e que dia belíssimo para o início desta “viagem” – Dia das Cinzas, primeiro dia da Quaresma!

Perceber um pouco da sua história, técnicas cheias de profundo simbolismo, expressão de uma fé que acredita verdadeiramente, até derramar o próprio sangue em nome disso, que a Beleza é um dos traços mais visíveis e inefáveis para “falar” do nosso Deus.
Uma Beleza que supera a arte e estética, porque quer “falar” e “escrever” com linhas, cores e olhos Aquele totalmente Outro diferente de nós, um Outro que está aqui, presente, como quem cuida, como quem escuta, como quem olha, como quem convida, como quem ama, como quem… vive connosco.

Eikon (grego) = Ícone = Imagem ou Reflexo

Eikon|ostasis (grego) = Iconostase = Parede cheia de Ícones. Numa Igreja é uma parede que separa o ambiente do altar do ambiente onde fica a comunidade. Pode ser também uma parede ou canto numa casa de família onde se colocam muitos Ícones, para orar.

Iconó|grafo = Aquele que escreve o Ícone


segunda-feira, 29 de março de 2010

Características do Ícone

anjo


A intenção principal do ícone não é apelar à nossa sensibilidade artística da beleza física. A beleza, na cultura dos ícones não é determinada pela forma natural das figuras, mas pelo sua individualidade espiritual, pelo seu ser mais profundo segundo a fé.

Diz João Crisóstomo: “Cada veste, animal ou planta são bons, não por causa da sua forma ou cor, mas pelo serviço que prestam.”

Algumas características que os ícones apresentam:

- Os rostos têm olhos grandes e em forma de amêndoa, orelhas destacadas, nariz longo e fino, boca pequena. Tudo para mostrar que a cada órgão dos sentidos foi dada a Graça Divina, todos esses órgãos são mostrados assim porque já foram santificados e já deixaram de ter as suas funções orgânicas de ser humano biológico

- Nunca é pretendido dar uma sensação a três dimensões, as perspectivas são até aparentemente sem sentido pois apresentam-se completamente invertidas. Tudo para nos dizer que esta não é a realidade física a que os nossos olhos estão acostumados a ver no mundo. Normalmente o chamado “ponto de fuga”, o ponto onde habitualmente todas linhas da perspectiva dos edifícios vão chegar está situado no lugar de quem contempla o ícone.

- Como o ícone representa uma realidade “interior”, espiritual, não mostra também uma fonte de luz natural, e a luz que aparece não provoca sombras. A única luz existente surge do próprio interior das figuras sagradas.

- No ícone podem ser representados vários momentos do mesmo acontecimento, por exemplo, no Nascimento de Jesus não se vê só o menino acabado de nascer mas pode apresentar também a chegada dos Magos do Oriente, os pastores a caminho da gruta, José a ser tentado pelo diabo, e até pode estar também representado o massacre dos inocentes, tudo no mesmo ícone.

Natividade séc XVI































sexta-feira, 19 de março de 2010

A janela





A bordadura presente em grande parte dos antigos Ícones elaborados na madeira tem um significado muito importante.
É como que a armação de uma janela.
E tal como uma janela serve somente para ver através dela, sem nos determos demasiado nos pormenores do “vidro”, também o Ícone tem essa finalidade principal, que sirva para se ver através dele.

VER

É talvez dos verbos que mais se irá repetir por aqui ao falarmos sobre os Ícones.

Ver através desta “janela” a beleza do mundo das coisas de Deus.
Ver a Beleza do Reino de Deus a acontecer.
Ver a Beleza do Outro que Se deixa Ver…
… e deixar-se “apanhar”, deixar-se olhar pelo olhar do Outro que entra através da janela da qual nos aproximamos.